O Partido da República (PR) ocupou uma posição relevante no sistema partidário brasileiro durante o período em que existiu com essa denominação, especialmente nas eleições estaduais realizadas entre 2006 e 2018. A legenda surgiu da reorganização partidária que deu origem ao PR e, ao longo de sua trajetória, construiu presença em diferentes regiões do país, participando de disputas para governos estaduais, Assembleias Legislativas e alianças majoritárias.
Para compreender seu desempenho, porém, é necessário considerar uma particularidade importante: o Partido da República deixou de existir com essa denominação em 2019, quando passou a utilizar o nome Partido Liberal (PL). O Tribunal Superior Eleitoral registra atualmente a legenda como Partido Liberal e identifica o antigo Partido da República na trajetória histórica da agremiação. Assim, a análise do PR nas eleições estaduais precisa separar o período em que a sigla era efetivamente PR de sua continuidade institucional posterior como PL.
Uma legenda de alcance nacional
O Partido da República nasceu em 2006, a partir da fusão entre o Partido Liberal e o Partido da Reedificação da Ordem Nacional. Desde o início, a legenda buscou construir uma estrutura nacional capaz de disputar cargos majoritários e proporcionais nos estados.
Sua estratégia eleitoral combinava características típicas dos grandes partidos brasileiros daquele período. Em algumas unidades da federação, o PR apresentava candidatura própria ao governo. Em outras, preferia integrar coalizões lideradas por partidos maiores ou por políticos com maior capacidade eleitoral local. Essa flexibilidade permitiu à legenda manter presença relativamente ampla, mesmo quando não possuía candidatos competitivos para os governos estaduais.
O desempenho do partido nas Assembleias Legislativas também foi significativo. A atuação regional era importante porque os deputados estaduais funcionavam como uma das principais bases de sustentação das estruturas partidárias nos estados. A eleição de parlamentares ajudava o PR a manter presença institucional mesmo em locais onde a legenda não conseguia conquistar o governo.
Esse modelo contribuiu para que o partido tivesse uma participação relevante no cenário estadual ao longo da década de 2010.
O auge da presença estadual
A evolução do PR deve ser observada dentro de um contexto mais amplo. As eleições estaduais brasileiras são fortemente influenciadas por alianças, lideranças regionais e coligações. Diferentemente da disputa presidencial, na qual a identificação nacional do partido pode exercer grande peso, nos estados o desempenho de uma legenda frequentemente depende da força de seus candidatos e das alianças construídas em cada unidade da federação.
O PR soube explorar esse ambiente.
Em diferentes eleições, a legenda esteve associada a candidaturas competitivas e participou de coligações que chegaram ao segundo turno ou conquistaram governos estaduais. Em muitos casos, sua importância não estava necessariamente em apresentar o candidato principal, mas em compor uma coalizão capaz de reunir diferentes forças políticas.
Essa característica fica evidente no Paraná, um dos estados nos quais o partido manteve uma presença particularmente visível. Na eleição estadual de 2014, por exemplo, o PR integrou a coligação Paraná Mais Forte, ao lado do PSC e do PTdoB. A aliança elegeu 12 deputados estaduais e obteve mais de 1,15 milhão de votos válidos para a disputa proporcional, equivalente a 20,06% dos votos considerados na coligação.
O resultado demonstra como o desempenho do PR não pode ser medido apenas pela quantidade de governadores eleitos. Sua força também estava na capacidade de formar blocos eleitorais e conquistar cadeiras nos legislativos estaduais.
A importância das Assembleias Legislativas
As eleições para deputado estadual constituíram uma das principais dimensões da atuação do Partido da República.
Nas eleições de 2018, por exemplo, candidatos do PR conquistaram cadeiras em Assembleias Legislativas de diferentes estados. No Paraná, Delegado Francischini e Marcel Micheletto foram eleitos pela legenda, com 61.310 e 43.177 votos, respectivamente.
O caso paranaense é particularmente interessante porque demonstra a capacidade de sobrevivência eleitoral da legenda mesmo em um ambiente de forte competição. O partido não controlava o governo estadual, mas conseguiu eleger representantes para o Legislativo e preservar uma estrutura política relevante.
Também na disputa para a Câmara dos Deputados, o PR manteve presença expressiva. No Paraná, em 2018, a legenda recebeu 301.458 votos para deputado federal, correspondentes a 5,26% dos votos, e conquistou três cadeiras. Embora esse dado seja referente ao Congresso Nacional, ele ajuda a dimensionar a estrutura eleitoral que sustentava a atuação regional do partido.
A força parlamentar federal e estadual frequentemente se reforçava. Deputados federais, estaduais, prefeitos e lideranças locais formavam redes políticas que poderiam ser mobilizadas em eleições majoritárias.
O desafio das eleições para governador
A disputa pelos governos estaduais apresentava um obstáculo maior para o PR.
Conquistar uma cadeira de deputado estadual dependia principalmente da capacidade de organização proporcional e da votação de candidatos. Já a eleição para governador exigia uma candidatura com grande exposição pública, alianças amplas e capacidade de vencer uma disputa majoritária em todo o estado.
Por isso, o desempenho do PR nos governos estaduais foi mais irregular.
A legenda conseguiu participar de projetos vencedores, mas nem sempre esteve no centro da disputa. Em muitos estados, o caminho escolhido foi apoiar candidatos de outras siglas em troca de participação na coalizão e de espaço político na futura administração.
Esse comportamento não deve ser interpretado automaticamente como fraqueza. No sistema eleitoral brasileiro, partidos de médio porte frequentemente obtêm influência justamente por meio das alianças. Uma legenda pode não eleger o governador, mas participar da coalizão vencedora, eleger parlamentares e ocupar posições relevantes no governo.
Essa foi uma das características marcantes da trajetória do PR.
A eleição de 2018 e a transformação do cenário político
A eleição de 2018 representou um momento decisivo para o partido e para todo o sistema político brasileiro.
O pleito ocorreu em um ambiente de forte polarização, crise de representação partidária e crescimento de candidaturas associadas à direita. A eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência da República alterou profundamente a dinâmica política nacional e afetou também as disputas estaduais.
Nesse cenário, o PR continuou presente em diferentes estados, mas passou a enfrentar uma competição cada vez maior pela representação do eleitorado conservador e de centro-direita.
No Paraná, por exemplo, Ratinho Júnior foi eleito governador no primeiro turno com 59,99% dos votos, enquanto a chapa tinha Darci Piana, do PR, como candidato a vice-governador. Esse episódio é especialmente significativo porque mostra a capacidade do PR de participar de uma chapa vitoriosa para o Executivo estadual mesmo sem apresentar o candidato principal ao governo.
A participação na vice-governadoria permitiu ao partido manter influência dentro de uma administração estadual eleitoralmente forte.
Em São Paulo, outro exemplo de atuação por meio de alianças ocorreu na candidatura de Márcio França ao governo estadual. França disputou o segundo turno contra João Doria, e sua chapa tinha Eliane Nikoluk, do PR, como candidata a vice-governadora. Embora a chapa tenha terminado derrotada, a presença do PR na composição demonstrava que a legenda ainda tinha valor estratégico nas negociações eleitorais de grande escala.
No Rio de Janeiro, o partido também apareceu na disputa majoritária por meio de Marcelo Delaroli, candidato a vice-governador na chapa de Romário. A candidatura obteve 8,70% dos votos no primeiro turno.
Esses exemplos revelam um padrão: o PR nem sempre era protagonista isolado, mas frequentemente fazia parte de alianças competitivas.
De força intermediária a nova identidade
A transformação do Partido da República em Partido Liberal, em 2019, alterou profundamente a trajetória da legenda. A mudança ocorreu pouco antes de um novo ciclo eleitoral marcado pelo crescimento do bolsonarismo e pela reorganização da direita brasileira.
Por isso, analisar o desempenho do antigo PR sem considerar sua continuidade no PL pode produzir uma interpretação incompleta.
A estrutura partidária construída durante os anos do PR ajudou a formar uma base que posteriormente seria utilizada pelo PL. A mudança de nome não significou simplesmente o desaparecimento de uma organização política. Houve continuidade institucional, administrativa e partidária.
O próprio Tribunal Superior Eleitoral identifica atualmente o Partido Liberal como sucessor da denominação Partido da República.
Essa continuidade permite compreender o PR como uma etapa importante na formação da estrutura eleitoral que posteriormente seria associada ao PL.
O contraste entre força proporcional e força majoritária
O desempenho histórico do PR nas eleições estaduais revela uma característica importante do sistema partidário brasileiro: ter muitos parlamentares não significa necessariamente controlar governos estaduais.
O partido demonstrou capacidade de eleger deputados, integrar coalizões e participar de chapas competitivas. Entretanto, sua presença nos Executivos estaduais foi mais limitada e dependente das circunstâncias políticas de cada estado.
Esse contraste também aparece na evolução mais ampla dos partidos brasileiros. Um estudo acadêmico baseado em dados do Tribunal Superior Eleitoral mostra como, no período de 1998 a 2022, houve forte redução do número de deputados estaduais eleitos por uma das grandes forças partidárias analisadas, de 151 para 55, ao mesmo tempo em que a votação para governos estaduais também se tornou mais concentrada em diferentes ciclos eleitorais. O dado ajuda a contextualizar a crescente fragmentação e transformação das disputas estaduais.
No caso do PR, a principal força esteve justamente na capacidade de adaptação a esse ambiente.
Um partido de alianças
O legado eleitoral do Partido da República pode ser resumido em três características: presença regional, força parlamentar e capacidade de articulação.
A legenda construiu uma rede política que ultrapassava a simples disputa por governos estaduais. Em vez de depender exclusivamente de candidaturas próprias, o PR frequentemente buscou espaço dentro de alianças.
Essa estratégia tinha vantagens. Permitira ao partido participar de governos vencedores mesmo quando não possuía uma candidatura majoritária suficientemente forte. Também ampliava as chances de eleger parlamentares e manter estruturas políticas locais.
Por outro lado, havia uma consequência: a identidade do partido ficava menos evidente para o eleitor. Quando uma legenda aparece em diferentes alianças, apoiando candidatos de perfis variados conforme o estado, sua imagem nacional tende a ser menos definida.
Essa característica ajuda a explicar por que o PR teve importância política considerável sem necessariamente se transformar em uma das principais forças nacionais na disputa pelos governos estaduais.
O balanço histórico
O desempenho do Partido da República nas eleições estaduais foi, portanto, marcado menos por uma hegemonia territorial e mais por uma presença estratégica.
Entre 2006 e 2018, a legenda participou de disputas em diferentes regiões do Brasil, elegeu representantes para Assembleias Legislativas, integrou coalizões importantes e participou de chapas que chegaram ao poder estadual. No Paraná, sua atuação parlamentar e sua presença em alianças majoritárias são exemplos claros dessa estratégia. Em 2014, a coligação da qual fazia parte elegeu 12 deputados estaduais. Em 2018, o partido voltou a conquistar cadeiras na Assembleia e integrou uma chapa vencedora para o governo estadual.
Ao mesmo tempo, a legenda enfrentou dificuldades para transformar sua presença parlamentar em um domínio mais amplo dos governos estaduais. Seu desempenho dependia fortemente das condições políticas locais, da popularidade dos candidatos e da capacidade de construir alianças.
A mudança para o Partido Liberal, em 2019, encerrou formalmente o ciclo do PR, mas não apagou sua estrutura política. Pelo contrário, a trajetória posterior do PL mostra como a organização construída durante os anos anteriores se tornou parte de uma nova fase da política brasileira.
Assim, o Partido da República deve ser entendido como uma legenda de transição e articulação. Seu papel nas eleições estaduais não foi definido apenas pelo número de governadores eleitos, mas pela capacidade de ocupar espaços estratégicos nos legislativos, participar de coalizões e manter presença em diferentes regiões.
O legado do PR está justamente nessa combinação entre estrutura regional, representação parlamentar e pragmatismo eleitoral. Sua história ajuda a explicar como partidos de porte intermediário conseguem exercer influência significativa no federalismo brasileiro mesmo sem dominar, de forma contínua, os principais governos estaduais.
Mais do que uma legenda marcada por vitórias isoladas, o PR foi uma peça importante no processo de reorganização das forças políticas brasileiras durante os anos 2000 e 2010. Sua transformação posterior em PL abriu um novo capítulo dessa história, em um cenário político profundamente diferente daquele em que o Partido da República havia construído sua identidade.

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