A participação do Partido da República em governos federais

 


O Partido da República (PR) ocupou um espaço relevante na política brasileira durante os anos 2000 e 2010, especialmente por sua participação em coalizões que sustentaram os governos de Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer. Embora tenha sido formalmente registrado com essa denominação apenas em 2006, a legenda nasceu da fusão do Partido Liberal (PL) com o Partido da Reedificação da Ordem Nacional (Prona), reunindo grupos políticos com trajetórias distintas e uma forte presença no Congresso Nacional.

Ao longo de sua existência, o PR desenvolveu uma característica marcante da política de coalizão brasileira: a capacidade de negociar apoio parlamentar em troca de participação na estrutura do governo federal. A presença da legenda em diferentes administrações não significou, necessariamente, uma adesão integral aos programas políticos dos presidentes. Em diferentes momentos, o partido apoiou o governo, negociou espaços na Esplanada dos Ministérios, divergiu de decisões do Palácio do Planalto e chegou a ameaçar abandonar a base aliada.

A trajetória do PR ajuda, portanto, a compreender como funcionou parte da articulação política dos governos federais no período entre 2006 e 2019.

A origem do PR e a chegada ao governo Lula

O Partido da República foi registrado pelo Tribunal Superior Eleitoral em dezembro de 2006, resultado da fusão entre o PL e o Prona. A criação da legenda ocorreu no contexto de reorganização do sistema partidário brasileiro e pouco depois da reeleição de Lula para um segundo mandato presidencial.

Por isso, é importante fazer uma distinção histórica. O PR, como partido formalmente constituído, não participou do primeiro mandato de Lula, iniciado em 2003. Entretanto, seus grupos políticos tinham presença no governo e no Congresso por meio do antigo PL, uma das legendas que posteriormente deram origem ao PR.

O PL havia integrado a coalizão que elegeu Lula em 2002, inclusive com a indicação de José Alencar para a Vice-Presidência da República. A relação entre o grupo político que posteriormente formaria o PR e o governo petista, portanto, começou antes da criação formal da nova sigla.

Com o surgimento do PR, essa relação foi preservada. Um dos principais exemplos foi Alfredo Nascimento, político do Amazonas que comandou o Ministério dos Transportes durante parte expressiva dos governos Lula. Em pronunciamento no Senado, Nascimento afirmou que havia sido ministro nas duas gestões de Lula e que comandara a pasta por quase seis anos e meio, com afastamentos para disputar eleições.

A permanência de Nascimento no Ministério dos Transportes tornou-se uma das principais marcas da participação do grupo no governo federal. A pasta tinha importância estratégica por concentrar investimentos em rodovias, ferrovias e infraestrutura logística, além de estar relacionada a grandes projetos do Programa de Aceleração do Crescimento.

Em 2007, já sob a denominação PR, Alfredo Nascimento retornou ao Ministério dos Transportes. Registros da Câmara dos Deputados da época destacam sua recondução à pasta e associam diretamente sua atuação ao Partido da República e ao governo Lula.

A relação entre o PR e o governo Lula, portanto, pode ser compreendida como uma parceria baseada na participação do partido na base governista e na ocupação de um ministério estratégico. O modelo também demonstrava uma característica recorrente do presidencialismo de coalizão brasileiro: a formação de maiorias parlamentares por meio da distribuição de espaços no Executivo.

A transição para o governo Dilma

A eleição de Dilma Rousseff, em 2010, preservou inicialmente a aliança entre o PT e o PR. O partido continuou interessado em participar do governo e manteve o Ministério dos Transportes sob sua influência.

Alfredo Nascimento foi novamente escolhido para comandar a pasta no início de 2011. Em discurso posterior, ele relatou que havia sido procurado por Dilma ainda no fim de 2010 para discutir a participação do PR no novo governo. Segundo seu relato, a presidente desejava manter o partido na coalizão e decidiu preservar sua participação no Ministério dos Transportes.

A relação, entretanto, enfrentaria uma das maiores crises de sua história poucos meses depois.

Em julho de 2011, denúncias envolvendo integrantes do Ministério dos Transportes e órgãos vinculados à pasta provocaram uma crise política. Alfredo Nascimento deixou o cargo após denúncias relacionadas a suposto esquema de cobrança de propina e superfaturamento de obras. O episódio atingiu diretamente a relação entre o PR e o governo Dilma.

A saída de Nascimento marcou uma ruptura temporária. O governo Dilma passou a comandar diretamente o ministério, enquanto o PR se afastou da condução da pasta. O episódio ficou associado à chamada "faxina" promovida pela presidente no início de seu mandato, período em que ministros e integrantes da estrutura federal foram substituídos após denúncias de irregularidades.

Apesar da crise, a aliança política não foi definitivamente rompida.

O retorno do PR ao primeiro escalão

Em 2013, o PR voltou a ocupar o Ministério dos Transportes. Dilma Rousseff nomeou César Borges para comandar a pasta, numa decisão que também tinha forte significado político. O governo buscava reconstruir a relação com o partido e fortalecer sua coalizão no Congresso.

Borges era filiado ao PR e tinha experiência tanto no Executivo quanto no Legislativo. Ex-governador da Bahia e ex-senador, assumiu os Transportes em abril de 2013. Na cerimônia de posse, Dilma destacou a importância da infraestrutura logística para o desenvolvimento econômico do país.

A passagem de Borges pelo ministério, entretanto, também mostrou que a relação entre partidos aliados e o Palácio do Planalto nem sempre era simples. Em 2014, a cúpula do PR passou a reclamar da atuação do ministro e alegou que ele não representava adequadamente os interesses da legenda.

O conflito terminou com uma reorganização. César Borges deixou o Ministério dos Transportes e foi deslocado para a Secretaria de Portos. Paulo Sérgio Passos voltou a comandar os Transportes. O episódio foi interpretado na época como parte das negociações políticas entre Dilma e o PR em torno da eleição presidencial de 2014.

A mudança revelou uma dimensão importante da participação do partido nos governos federais: a disputa não se limitava à presença formal de um filiado em determinado cargo. A direção partidária também buscava exercer influência sobre as escolhas ministeriais e sobre o controle político das estruturas subordinadas às pastas.

O PR novamente nos Transportes em 2015

No segundo mandato de Dilma Rousseff, iniciado em 2015, o PR voltou a indicar um de seus principais dirigentes para o Ministério dos Transportes.

Antonio Carlos Rodrigues, então secretário-geral da direção nacional do partido, assumiu a pasta em janeiro daquele ano. A nomeação reforçou a presença política direta do PR no governo.

Rodrigues passou a comandar uma área central da política de infraestrutura brasileira em um período marcado pela tentativa de ampliar concessões de rodovias e ferrovias. Em junho de 2015, o governo lançou uma nova etapa do Programa de Investimento em Logística, com previsão de R$ 152,5 bilhões em investimentos em rodovias e ferrovias.

A presença do PR no governo Dilma, contudo, seria novamente afetada pela crise política que culminou no processo de impeachment da presidente em 2016.

O partido teve uma posição relevante na votação do impeachment na Câmara dos Deputados. Entre seus integrantes havia diferentes posições, refletindo as divisões existentes dentro da própria legenda. Maurício Quintella, por exemplo, então deputado do PR, deixou a liderança partidária para votar a favor do afastamento de Dilma.

Com a mudança de governo, o PR não desapareceu da estrutura federal. Ao contrário, rapidamente negociou sua participação na administração de Michel Temer.

A participação no governo Michel Temer

Com o afastamento definitivo de Dilma Rousseff e a posse de Michel Temer, em 2016, o PR manteve uma posição estratégica no governo federal. A legenda negociou a permanência no setor de transportes e indicou Maurício Quintella para comandar a pasta.

Quintella assumiu o Ministério dos Transportes em maio de 2016. A estrutura da pasta foi ampliada e passou a incorporar também áreas relacionadas à aviação civil e aos portos.

A participação do PR no governo Temer apresentou uma característica diferente daquela observada no período Lula e nos primeiros anos de Dilma. O partido passou a integrar uma coalizão política mais identificada com o centro e a direita parlamentar, embora sua atuação continuasse marcada pela negociação de apoio no Congresso.

Quintella permaneceu no cargo durante quase dois anos. Em seu balanço de gestão, destacou a necessidade de ampliar a participação privada na infraestrutura brasileira, em razão das limitações fiscais do governo federal. Entre as prioridades estavam concessões de rodovias, portos e aeroportos.

O PR também demonstrou importância parlamentar durante o governo Temer. Em 2017, a legenda possuía uma das maiores bancadas da Câmara e era considerada peça relevante para a sustentação do governo no Congresso. Quintella, como ministro, defendia o apoio da legenda ao presidente, embora reconhecesse que o partido nem sempre fechava questão em todas as propostas.

Em 2018, Quintella deixou o ministério para disputar as eleições. Mesmo assim, o governo Temer manteve a pasta sob influência do PR. Valter Casimiro Silveira, então diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, assumiu o ministério com o apoio da legenda.

A continuidade demonstrava a força que o partido havia adquirido na área de infraestrutura ao longo de mais de uma década.

De PR a Partido Liberal

A história do Partido da República chegou ao fim formalmente em 2019, mas sua estrutura partidária não desapareceu. O Tribunal Superior Eleitoral aprovou naquele ano a mudança do nome da legenda para Partido Liberal, mantendo o número 22. A alteração havia sido aprovada anteriormente em convenção partidária, com 173 votos favoráveis entre 182 participantes.

A mudança é importante para compreender a continuidade histórica da organização. O atual Partido Liberal é oficialmente reconhecido pela Justiça Eleitoral como sucessor do Partido da República. Registros dos tribunais eleitorais também identificam o PR como a denominação anterior do atual PL.

Assim, a trajetória do PR não deve ser tratada simplesmente como a história de um partido que desapareceu em 2019. Trata-se de uma organização política que mudou de nome e continuou sua trajetória institucional sob a denominação Partido Liberal.

Uma trajetória marcada pela política de coalizão

A participação do Partido da República nos governos federais revela, em última análise, a importância das coalizões partidárias para a governabilidade brasileira.

Entre os governos Lula, Dilma e Temer, o PR ocupou posições relevantes, principalmente na área de transportes e infraestrutura. Alfredo Nascimento, César Borges, Antonio Carlos Rodrigues e Maurício Quintella foram alguns dos principais nomes associados à presença da legenda no primeiro escalão federal.

A influência do partido, porém, não foi linear. Houve momentos de forte alinhamento com o governo, crises, afastamentos, negociações para retorno à base e mudanças de posição conforme o cenário político se transformava.

Essa trajetória também evidencia que a participação de um partido em um governo não pode ser medida apenas pelo número de ministérios ocupados. O peso de uma legenda depende de sua bancada no Congresso, de sua capacidade de negociação, de suas lideranças regionais e da importância das áreas sob seu controle.

No caso do PR, o Ministério dos Transportes tornou-se o principal símbolo dessa influência. Durante diferentes administrações, a legenda conseguiu manter presença direta ou indireta na área responsável por uma parcela significativa dos investimentos federais em infraestrutura.

Entre 2006 e 2019, o PR passou por governos de orientações políticas distintas e sobreviveu a profundas mudanças no cenário nacional. Participou das administrações petistas, atravessou a crise que levou ao impeachment de Dilma e integrou a base do governo Temer.

Sua transformação em Partido Liberal, em 2019, encerrou formalmente a fase do Partido da República, mas preservou a continuidade institucional da organização. A história do PR, portanto, é também uma síntese de uma característica marcante da política brasileira: partidos de centro e centro-direita capazes de transitar entre diferentes governos, negociar espaços no Executivo e exercer influência decisiva na construção das maiorias parlamentares.

Fontes consultadas: registros e documentos do Tribunal Superior Eleitoral, Ministério dos Transportes, Senado Federal, Câmara dos Deputados e reportagens da imprensa sobre as negociações políticas e as mudanças ministeriais. 

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