Brasil precisa fortalecer sua capacidade de dissuasão para proteger a soberania, afirma Celso Amorim

 

Em cenário internacional cada vez mais instável, assessor especial da Presidência defende que o país combine diplomacia, diálogo e capacidade de defesa para evitar pressões externas

A crescente instabilidade do sistema internacional tem recolocado no centro do debate uma questão que durante décadas permaneceu relativamente distante da agenda pública brasileira: como proteger a soberania nacional em um mundo marcado pela intensificação das disputas geopolíticas, pela competição entre grandes potências e pelo uso recorrente da força militar como instrumento de pressão política.

Foi justamente sobre esse tema que o assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, falou durante o Fórum Internacional de Segurança de 2026, realizado em Moscou. Em entrevista concedida à imprensa brasileira durante o evento, o ex-ministro das Relações Exteriores e ex-ministro da Defesa apresentou uma visão abrangente sobre os conflitos contemporâneos, a posição do Brasil diante das tensões globais e os desafios para a preservação da autonomia nacional.

Para Amorim, a principal lição do cenário atual é clara: a defesa da paz e do diálogo continua sendo essencial, mas a diplomacia precisa ser acompanhada de capacidade dissuasória. Em outras palavras, um país deve possuir meios suficientes para tornar qualquer tentativa de intervenção externa excessivamente custosa para potenciais adversários.

Segundo ele, essa capacidade não deve ser entendida como preparação para a guerra, mas como um instrumento para evitá-la.

Um mundo em transformação

Nos últimos anos, o ambiente internacional passou por mudanças profundas. Conflitos armados se multiplicaram em diferentes regiões, disputas comerciais ganharam dimensão estratégica e o conceito de multipolaridade passou a ocupar espaço crescente nos debates diplomáticos.

Na avaliação de Amorim, a ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial atravessa um período de erosão acelerada. A sucessão de intervenções militares, sanções econômicas e disputas geopolíticas demonstra que os mecanismos tradicionais de governança global enfrentam dificuldades para responder aos desafios contemporâneos.

Essa percepção ganhou força especialmente após os episódios envolvendo Venezuela, Irã e Cuba, países que, em diferentes momentos, se tornaram alvos de pressões externas e de tensões com Washington.

O diplomata brasileiro considera que a defesa dos princípios da autodeterminação dos povos e da solução pacífica das controvérsias deve continuar orientando a política externa brasileira. No entanto, ressalta que a realidade internacional exige uma análise pragmática das correlações de força existentes.

A preocupação com Cuba

Entre os temas que mais despertam preocupação em Brasília está a situação de Cuba.

Amorim destacou que a ilha ocupa um lugar singular na história política da América Latina e representa muito mais do que apenas um sistema político específico. Para ele, mesmo aqueles que divergem do modelo cubano reconhecem o peso simbólico que o país adquiriu ao longo das últimas décadas.

Segundo sua avaliação, tentativas de solução pela força tendem a produzir consequências humanitárias graves, sem necessariamente resolver os problemas políticos que pretendem enfrentar.

A experiência histórica demonstra que bloqueios econômicos, embargos e pressões externas prolongadas raramente alcançam os resultados pretendidos. Em muitos casos, acabam agravando o sofrimento da população civil e aprofundando crises já existentes.

Por isso, a defesa do diálogo permanece, para o governo brasileiro, o caminho mais adequado para lidar com situações complexas como a cubana.

O caso iraniano e a memória da Declaração de Teerã

Ao abordar o Irã, Amorim relembrou um dos episódios mais marcantes de sua trajetória diplomática: a tentativa de mediação conduzida por Brasil e Turquia em 2010 para buscar uma solução negociada para as controvérsias relacionadas ao programa nuclear iraniano.

Naquele momento, a iniciativa brasileira representou um dos maiores esforços diplomáticos já realizados pelo país em questões de segurança internacional.

O acordo alcançado em Teerã previa mecanismos para reduzir tensões e criar condições para o avanço das negociações entre o Irã e as potências internacionais.

Segundo Amorim, a iniciativa surgiu após solicitações explícitas do então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que buscava interlocutores capazes de dialogar com autoridades iranianas.

A diplomacia brasileira investiu meses na construção de confiança entre as partes, articulando conversas, promovendo encontros e buscando superar obstáculos que pareciam intransponíveis.

Apesar dos avanços alcançados, o entendimento acabou não prosperando.

Na visão do ex-chanceler, fatores políticos internos dos Estados Unidos contribuíram para o fracasso da iniciativa. Divergências dentro da administração norte-americana e a proximidade de disputas eleitorais teriam reduzido o espaço para a aceitação de uma solução negociada construída fora dos canais tradicionais das grandes potências.

Mesmo passados mais de quinze anos, Amorim continua considerando que a experiência demonstrou a capacidade do Brasil de atuar como mediador relevante em questões internacionais complexas.

A crítica à lógica da mudança de regime

Outro ponto central da análise apresentada por Amorim diz respeito à crença de que intervenções militares possam produzir transformações políticas duradouras.

Segundo ele, a história recente demonstra que democracias não são construídas por meio de bombardeios ou invasões.

Mudanças políticas sustentáveis dependem de processos internos, amadurecimento institucional, evolução social e respeito às características históricas e culturais de cada sociedade.

O diplomata argumenta que diferentes países passaram por processos longos de transformação e que nenhum deles ocorreu de forma instantânea ou imposta de fora para dentro.

Essa visão reforça um princípio tradicional da diplomacia brasileira: a não intervenção nos assuntos internos de outros Estados.

Para Amorim, o respeito à autodeterminação continua sendo um dos pilares fundamentais para a construção de uma ordem internacional mais estável.

Brasil e Rússia: uma relação em aproximação

Durante sua passagem por Moscou, Amorim participou de reuniões com importantes autoridades russas e avaliou positivamente o atual estágio das relações bilaterais.

Segundo ele, existe uma reaproximação política significativa entre Brasil e Rússia, especialmente em temas relacionados à defesa do multilateralismo e da multipolaridade.

Ao mesmo tempo, reconhece que persistem desafios econômicos importantes.

O déficit comercial brasileiro nas trocas com a Rússia continua elevado, resultado principalmente das importações de fertilizantes, combustíveis e outros insumos estratégicos.

Na avaliação do assessor presidencial, o fortalecimento do relacionamento bilateral deve incluir esforços para ampliar as exportações brasileiras e tornar as relações econômicas mais equilibradas.

Apesar dessas dificuldades, o momento é considerado favorável para o aprofundamento do diálogo político.

A retomada de mecanismos de consulta de alto nível e a intensificação dos contatos diplomáticos são vistas como sinais positivos de uma parceria que busca ganhar densidade em um cenário internacional cada vez mais complexo.

Multipolaridade e autonomia estratégica

Um dos conceitos mais presentes na fala de Amorim é o de multipolaridade.

Para ele, a existência de múltiplos centros de poder contribui para reduzir riscos de hegemonia e amplia o espaço de manobra para países em desenvolvimento.

Nesse contexto, o Brasil busca fortalecer sua autonomia estratégica, diversificando parcerias e evitando alinhamentos automáticos.

A lógica é simples: quanto maior a capacidade de um país dialogar com diferentes atores internacionais, maiores são suas possibilidades de defender interesses próprios.

Essa estratégia se tornou particularmente relevante em um período marcado pela rivalidade crescente entre Estados Unidos e China, além das tensões envolvendo Rússia, União Europeia, Oriente Médio e outras regiões.

O debate sobre defesa nacional

Talvez a parte mais impactante das declarações de Amorim tenha sido sua defesa da necessidade de fortalecer a capacidade dissuasória brasileira.

O tema vem ganhando espaço em diversos países, impulsionado pelo aumento dos gastos militares em várias regiões do mundo.

Na Europa, países como Alemanha ampliaram significativamente seus investimentos em defesa. Na Ásia, o Japão promove mudanças históricas em sua política de segurança. No Oriente Médio, diferentes Estados buscam modernizar seus arsenais.

Diante desse cenário, Amorim argumenta que o Brasil não pode assumir que sua condição de país pacífico seja suficiente para afastar qualquer ameaça futura.

A paz, segundo ele, não depende apenas da intenção de evitar conflitos, mas também da capacidade de tornar agressões pouco vantajosas.

Essa é a essência da dissuasão.

O que significa capacidade dissuasória?

No campo estratégico, dissuasão é a capacidade de convencer potenciais adversários de que uma ação agressiva produzirá custos elevados demais para justificar seus benefícios.

Não se trata necessariamente de possuir forças militares superiores às de outros países.

O objetivo é criar condições para que qualquer tentativa de coerção encontre resistência suficiente para desencorajar sua execução.

Ao longo da história, diversas nações adotaram estratégias de dissuasão compatíveis com seus recursos e circunstâncias geográficas.

Em alguns casos, isso envolveu sistemas avançados de defesa aérea. Em outros, investimentos em mísseis, drones, guerra eletrônica, capacidades cibernéticas ou monitoramento territorial.

Segundo Amorim, o Brasil deve refletir sobre quais instrumentos melhor atendem às suas necessidades específicas.

O papel dos recursos estratégicos

A discussão sobre soberania não se limita ao aspecto militar.

O avanço da transição energética e da revolução tecnológica aumentou a importância de recursos considerados estratégicos, como terras raras, lítio, nióbio, grafite e outros minerais essenciais para a indústria moderna.

O Brasil possui reservas significativas de vários desses recursos.

Por isso, cresce o debate sobre como proteger ativos considerados fundamentais para o desenvolvimento nacional.

Amorim sugere que a defesa da soberania passa também pela capacidade de administrar esses recursos de forma autônoma e de evitar situações em que pressões externas possam limitar decisões nacionais.

Nesse sentido, segurança econômica e segurança nacional tornam-se conceitos cada vez mais interligados.

O exemplo da China

Ao comentar a dinâmica das relações internacionais contemporâneas, Amorim citou o caso da China e sua influência sobre mercados estratégicos.

A posição chinesa em setores essenciais demonstrou como instrumentos econômicos podem exercer impacto significativo nas relações de poder globais.

Esse tipo de capacidade não substitui a força militar, mas amplia o conjunto de ferramentas disponíveis para a defesa dos interesses nacionais.

A experiência internacional mostra que influência tecnológica, controle de cadeias produtivas e domínio de recursos estratégicos podem funcionar como importantes elementos de dissuasão.

Armas nucleares estão fora da discussão?

Questionado sobre a possibilidade de o Brasil reconsiderar sua posição em relação às armas nucleares, Amorim foi categórico ao lembrar que a Constituição brasileira estabelece limites claros nesse campo.

Segundo ele, embora as armas nucleares continuem desempenhando papel relevante na estratégia das grandes potências, existem diversas outras formas de construir capacidade dissuasória.

O desenvolvimento tecnológico, a modernização das Forças Armadas, a proteção de infraestruturas críticas, a segurança cibernética e o fortalecimento da indústria nacional de defesa são exemplos frequentemente citados por especialistas como caminhos possíveis para ampliar a capacidade estratégica brasileira.

Diplomacia e força não são incompatíveis

Uma das mensagens centrais da reflexão apresentada por Amorim é que diplomacia e capacidade de defesa não são conceitos opostos.

Pelo contrário.

Historicamente, muitos países combinaram diálogo, cooperação internacional e mecanismos de defesa robustos.

Na visão do diplomata, a capacidade de negociação tende a ser fortalecida quando acompanhada de instrumentos que garantam credibilidade e autonomia.

O objetivo não é substituir o diálogo pela força, mas assegurar que o diálogo ocorra em condições de maior equilíbrio.

Essa lógica se aplica tanto às relações entre grandes potências quanto às interações envolvendo países de porte médio, como o Brasil.

Um debate que volta ao centro da agenda nacional

As declarações de Celso Amorim refletem uma discussão cada vez mais presente entre especialistas em relações internacionais, defesa e desenvolvimento.

O mundo atravessa um período de transformações aceleradas, marcado pela redistribuição do poder global, pela competição tecnológica e pela crescente valorização de recursos estratégicos.

Nesse contexto, a questão da soberania nacional ganha nova relevância.

Para o Brasil, o desafio consiste em encontrar um equilíbrio entre sua tradição diplomática, baseada na busca pela paz e pelo diálogo, e a necessidade de adaptar-se a um ambiente internacional mais competitivo e imprevisível.

A mensagem transmitida por Amorim pode ser resumida em uma ideia fundamental: um país que deseja preservar sua autonomia precisa combinar capacidade de negociação, independência econômica, desenvolvimento tecnológico e instrumentos eficazes de defesa.

Em um cenário global cada vez mais incerto, a soberania deixa de ser apenas um princípio jurídico e passa a depender, cada vez mais, da capacidade concreta de protegê-la.

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